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Há uma chaga – são muitas – mas uma, especialmente, fica difícil cicatrizar.

Nos últimos dois meses de 2007, fim de Ano, como agora, uma menina de 15 anos, L.A.B., iniciais de seu nome, foi presa tentando roubar um celular e uma correntinha de prata em Abaetuba, grotões do Pará.

Os objetos pertenciam a um garoto sobrinho de um policial.

LAB era uma proposta de gente; 40 quilos e menos de 1m e meio.

Detida pelo policial e mais dois colegas, foi levada a uma delegacia sob socos no estômago e arma na boca.

Imediatamente jogada numa pocilga de mais de 20 homens, e lá permaneceu por 26 dias, estuprada durante o dia e à noite.

Se não se “entregava”, como deve, tinha os pés queimados por cigarros, e lhe era negada a comida.

Nenhum Kakay, nenhum Cristiano Zanin, eles que se preciso for pegam em armas em nome dos direitos humanos, entraram em cena.

Os advogados, por humanos, às vezes trabalham até de graça, pleiteando, prisão domiciliar, retirada de tornozeleiras eletrônicas, como por exemplo, acontece hoje com Adriana Ancelmo, Rosinha Garotinho, e tantas outras.

Embargos infringentes, protestos da OAB, juizado de menores, movimentos sociais, feministas?

Nem vem que não tem.  

Abaetuba, onde o diabo se esconde, a conheço em razão de reportagens e livros, fica a uns 100 km de Belém.

Uma ação dessas caindo no colo do ministro Gilmar Mendes, do STF,  na hora, vamos imaginar, ele, cuja humanidade ninguém questiona, tirava LAB do Inferno em que se metera.

Quem mais a violentou foi um preso que atendia pelo nome de “Cão”, Rodinei Ferreira, embora a virgindade lhe fosse  brutalizada por outro bandido de cela, já no 1º  dia de prisão, no interior do banheiro fedorento, com elas aos berros.

A delegada Flávia Verônica Pereira que autorizou sua prisão, nem lhe pediu documento.

Não precisava. Visível, um “batoré” de criança, um projeto de gente, menos de 40 quilos, lançado às feras de machões ensandecidos.

O auto de prisão foi sacramentado pela Juíza Clarice Maria de Andrade, ratificando a decisão da delegada Flávia Verônica Pereira.

Essa podridão humana só veio fazer ruído seis anos depois, em 2013, permanecendo todo esse tempo no mais absoluto e necessário silêncio.

Há mais, nessa história macabra. Governava o Pará, Ana Julia Carepa, que também tirou suas mãos da reta.

Condenados apenas Cão, e mais 9 parceiros de cela, já que os outros, combalida como ficou, LAB não tinha mais a menor memória.

A juíza, submetida ao CNJ, foi aposentada, com vencimentos, recorreu, e o STF anulou sua condenação, por achá-la “excessiva”.

Ela voltou a ser juiza, e tive dela notícias, à ocasião, como titular da Comarca de Ananindeua.

Tivemos, neste Inferno – que não é um acidente de percurso, uma exceção – a participação de três mulheres; uma delegada, uma juíza e uma Governadora.

Todas três entram nas estatísticas do Brasil da impunidade, dos bandidos de colarinho branco, de que nos dá notícia o ministro Luiz Barroso, do STF.

De LAB, se sobreviveu, não restou gente, é de se imaginar, esmagada que foi, em suas entranhas, pelos agentes da lei de um país que se orgulha de ser cristão, cordial e pacífico.

Chegou a circular, anos depois, pelas ruas de Belém, mas foi “aconselhada” por policiais, a picar a mula, dar no pé.

Na passagem do Ano, com tanta alegria generalizada, dela participo, cauteloso, mas faço questão de colocar martini, martini fuleiro, vagabundo, no licor do Brasil dessa gente dourada, queimada pelo Sol do Atlântico Sul.

 

Um pensamento em “ANO NOVO, ANO VELHO – BRASIL PROFUNDO

  1. Mal consegui ler até o final… brutalidade demais. Maior ainda foi a da delegada que a colocou na mesma cela. Nunca achei que mulheres estão fora dessa estupidez toda que se agiganta nesse país… mas realmente não ficamos sabendo da missa a metade… E o que mais me preocupa é a corrente que prega aos eleitores para não votarem nulo e escolherem candidatos que nunca tiveram mandatos… porque a manobra está justamente aí, nesse bando de mulheres da elite que “de repente” resolveram entrar na política. Por que? São mulheres, irmãs ou namoradas dos mesmos salafrários que hoje saqueiam o país, mas não carregam o mesmo nome, fazem partei de um “novo” partido. Sei não.

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