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Drummond poeta

Lembro ainda, vividamente, de sua presença incentivadora ̶ e a de outro
mineiro também ilustre, Juscelino Kubitschek ̶ no lançamento de Bagagem,
livro de estreia de Adélia Prado, edição da Imago, numa galeria da Praça Nossa
Senhora da Paz, quase na esquina da Barão da Torre, em Ipanema.

Ele não só escreveu sobre a poesia de Adélia como fez questão de recebê-la, com seu marido José de Freitas mais o editor e amigo Pedro Paulo de Sena Madureira
(que a seguir iria trabalhar na Nova Fronteira), para drinques e comidinhas em
seu apartamento. Recordo ainda das vezes em que o encontrei, no fim da tarde,
no “frescão”, o ônibus com ar condicionado que se apanhava na Av. Erasmo
Braga, rumo a Ipanema; numa delas, tinha como companhia um pequeno livro
sobre Rembrandt editado pela Skira.

Também na Livraria Folhetim, que, na segunda metade dos anos 70, funcionava numa galeria da Av. Prado Júnior, em Copacabana, o vi em conversa fraterna com Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti, por ocasião do lançamento de um dos volumes das memórias de Pedro Nava.
Encontrei-o em 1980, com d. Dolores, barba por fazer, no velório de
Vinicius de Moraes no São João Batista, onde vi Tônia Carrero afagando,
ternamente, a cabeça do morto; em 1982, por ocasião de seu octogésimo
aniversário, na sede da Nova Fronteira, quando, por interferência de Maria
Julieta, Otto Lara Rezende e Pedro Paulo, aceitou dar longa entrevista a Leda
Nagle e Teresa Walcacer, gravada para a TV Globo na sala de Sérgio Lacerda, o
principal sócio da editora; na Biblioteca Nacional, de pé ao lado de José
Guilherme Merquior, que o saudou de improviso pelos seus 80 anos; alegre e 
elegante, em junho de 1983, conversando com Antônio Carlos Villaça, Fernando
Sabino e Pedro Paulo no apartamento de Pedro Nava, na Rua da Glória 170/702,
na festa de 80 anos do admirável memorialista…

Em todas essas ocasiões, penso ter achado o momento certo para cumprimentá-lo, ou comentar sobre algum recente escrito seu.

Ele agradecia, atencioso, mas algo no tom de sua voz sinalizava desconforto com o mais mínimo elogio a um poema ou crônica sua. Drummond era reservado e fugidio, e, pelo que soube depois, só se mostrava realmente à vontade no trato com as mulheres.
Os anos se passaram, e continuei acompanhando o que Drummond
publicava em livros e jornais, afora as notícias que me chegavam dele por
intermédio de amigos comuns. Com sua filha Maria Julieta, cujo olhar sempre
me pareceu exalar uma contida melancolia, conversei em diversas ocasiões,
principalmente em lançamentos de livros aos quais ela costumava comparecer
com o namorado, o escritor Otávio Mello Alvarenga, que mais tarde escreveu
sobre Drummond num tom que desagradou a muitos amigos e admiradores do
poeta.
Já em relação a Plínio Doyle me mantive à distância, evitando as rodas
onde, porventura, ele estivesse. Nos lançamentos da José Olympio, meu radar
permaneceu sempre atento à sua aproximação, pois ele era frequentador assíduo
da editora. Nunca me animei a lhe propor qualquer diálogo, embora com o tempo
tenha adquirido suficiente informação sobre sua contribuição meritória à nossa
história literária por intermédio da criação do Arquivo-Museu de Literatura
Brasileira, na Casa de Ruy Barbosa, onde desde 1989, por determinação sua, se
encontra a preciosa biblioteca que construiu ao longo da vida.
Ironicamente, em 1996, quando reeditei D. João VI no Brasil, 51 anos
depois da edição pela José Olympio, soube que ele aplaudiu a iniciativa,
mostrou-se curioso a meu respeito, e encarregou a escritora Maria José de
Queiroz de me transmitir o convite para ir, num sábado próximo, ao seu agora
histórico “Sabadoyle”.

À minha amiga e editada pedi que transmitisse meu agradecimento pelo convite, mas lá não fui, posto que continuava forte em mim o eco da frase indelicada com que me brindou à porta de seu prédio, no distante abril de 1975, apenas porque eu ousara abordar Drummond em busca de um pouco de conversa e de um autógrafo no meu exemplar de sua poesia reunida.

The End

José Mário – Editor da Topbooks –

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