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Drummond

No final da década de 70, mais de uma vez o observei à distância, na
entrada do Palácio Capanema, na Av. Graça Aranha, atento aos elevadores,
inquieto, movendo-se de um lado para outro, à espera de Lígia, que lá trabalhava.
Quando Drummond a via chegando ao seu encontro, punha-se de imediato a
andar na direção da Araújo Porto Alegre; dali entravam pela México, e a seguir
pegavam a Almirante Barroso até o edifício Marquês de Herval, na Rio Branco,
em cujo subsolo funcionava a Livraria Leonardo da Vinci.

Sempre me chamou a atenção, nas vezes em que presenciei esse ritual, o fato de Drummond não fazer nenhum afago ou cumprimento à chegada da namorada, certamente por pudor de externar intimidade em público, ou medo de ser fotografado.

Ele nem mesmo andava ao lado de Lígia, mas um passo ou dois adiante, e assim iam até à Leonardo da Vinci. Lá falei com ele diversas vezes, rapidamente, porém nunca ouvi a voz de Lígia.
A dona da livraria, d. Vanna Piracini, a quem Drummond estimava e com
quem conversava muito  ̶  diziam até que fora apaixonado por ela  ̶  ficava atenta:
quando via alguém desconhecido puxando papo com o poeta, levantava-se,
encostava no desavisado e pedia que não o incomodasse.

Drummond tinha por hábito examinar com Lígia as mesas de livros na primeira sala, dando voltas em torno delas, enquanto faziam comentários inaudíveis aos demais. Certa ocasião, encontrei o casal na segunda sala da livraria, sentado num banco de forro preto, rente à vitrine que dava para o corredor; alheios a tudo, folheavam com atenção um livro de grande formato, apoiado sobre as pernas.

Mesmo à distância – pois diante da cena ninguém ousava se aproximar – ficava evidente que o poeta e sua musa estavam ali de namorico.

Na mesma Leonardo da Vinci, onde costumava fazer suas encomendas e
consultar catálogos de editoras internacionais à procura de livros que o
interessavam, cheguei a ver Drummond trocando impressões sobre temas da
política com o cartunista Álvarus, colecionador de livros de desenhos eróticos,
matéria que o poeta apreciava e consumia; conversando com Guilherme
Figueiredo, que ali fora em busca de um ensaio de Valéry sobre a dança; ou
folheando, em companhia do artista gráfico Salvador Monteiro, a quem tinha em
alto conceito, um volume com gravuras de Aubrey Beardsley.

José Mário – editor da Topbooks

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