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Drummond 1

Também foi gentil ao me mostrar algumas raras edições encadernadas, entre elas a primeira de Alguma poesia, que marcou sua estreia em 1930, e cuja tiragem, de apenas 500 exemplares, ele mesmo pagou. Perguntei se frequentava os sebos da cidade, e me contou que já não fazia isso como antigamente, mas vez por outra ia à Livraria Brasileira, no edifício Avenida Central. Depois ressaltou que recebia muitos livros,  mas, por falta de espaço, doava o que podia; frequentemente mandava caixas deles para uma biblioteca mantida pelo escritor Orígenes Lessa em Lençóis Paulista, cidade natal do autor de O feijão e o sonho.

Indaguei-lhe como organizava seus volumes de crônicas e ele me garantiu que isso acontecia naturalmente: ia guardando os recortes de jornal e, quando tinha um número suficiente, fazia a seleção e enviava à editora José Olympio. Numa carta a José Guilherme Merquior, em 11 de dezembro de 1972, Drummond faz uma declaração que merece ser transcrita aqui, tanto pelo seu ineditismo, quanto pela sinceridade com que se expressa:

“(…) Não sei se você estará certo no que diz sobre minhas crônicas, muito embora sinta muita satisfação em ver assim valorizado meu trabalho de jornal. A verdade é que não pretendo ir além do entretenimento matinal do leitor, e se o consigo, fico em paz comigo mesmo. Considero esse trabalho estritamente profissional, e procuro fazê-lo corretamente, mas sem ilusões quanto à sua durabilidade e ao seu teor literário. Mas então ̶ perguntará você ̶ por que diabo o reúne em livro? Bem, a razão é que o público brasileiro manifesta certo interesse momentâneo ̶talvez hoje um pouco menor do que há alguns anos ̶ por esse gênero de amenidades, e ele tem servido ao ensino de Português vivo nos colégios. Isso resulta em livro, e em algum lucro pecuniário para o cronista, que não é acionista da Petrobrás e precisa viver…”

Lá pelo meio da conversa, Drummond voltou a se levantar, pegou um volume da Enciclopédia Delta Larousse na estante atrás de mim, e me mostrou o tipo de atualização que costumava fazer nela: quando lia algo interessante nos jornais, ou se alguém morria ou publicava um livro importante, ele ia ao verbete correspondente à pessoa ou ao tema e inseria ali, com sua letra miúda e firme, a informação recente. Era, como se vê, minucioso, atento a tudo, com propensão a arquivista em relação ao que dizia respeito a seu métier.

Falamos até de aniversário, dada a coincidência de sermos do mesmo mês de outubro, e ele observou que sentia desconforto com comemorações: admirava os amigos que gostavam de festa mas, por ser um tímido, sempre optou por ficar quieto no seu canto. Recentemente, tive a confirmação do que ele me disse então, ao tomar conhecimento de uma carta, inédita, escrita por Drummond, em 7 de novembro de 1977, ao poeta e pintor José Paulo Moreira da Fonseca, na qual sintetiza com precisão esse seu sentimento gauche:

“Meu querido José Paulo, Ainda não me acostumei, não digo a envelhecer, mas a tirar do tempo motivos de comemoração. A velhice não se recusa: aceita-se com a possível serenidade. Mas celebrar o feito de estar mais velho, isso ainda não aprendi. (…) Então, os amigos vêm e nos ajudam a transformar em alegria íntima o que parecia ato forçado. É uma ajuda providencial, pois do contrário seríamos simplesmente notícia, motivo de reportagem e curiosidade pública. (…) Você tem sido um desses amigos salvadores, pela reiteração do afeto participante, nobre e cheio de pureza”. (…)

O tempo passou rápido nessa manhã em companhia de Drummond, e a conversa só se encerrou quando ouvi uma voz de comando dizer, à distância: “Carlos, o almoço está na mesa!”, o que entendi como um sinal para eu ir embora. Ao me despedir dele, vi, no meio da sala pouco iluminada, sua mulher, d. Dolores, a quem cumprimentei de longe, mas ao meu “bom dia” ela respondeu apenas com um leve movimento de cabeça.

A partir de então, passei a encontrar o filho ilustre de Itabira nos mais diversos lugares. Afora isso, quando uma crônica sua me tocava, eu ligava para cumprimentá-lo. Ele agradecia, mas nunca esticou conversa ao telefone. Lembro-me dele na sede da José Olympio, na Rua Marquês de Olinda, em Botafogo, onde costumava se demorar na sala de Daniel Pereira, irmão de J. O., que cuidava da produção da casa. Foi ali que deixou para mim, em 11 de agosto de 1975, dois livros seus: a 2a edição de Boitempo e A falta que ama, com a dedicatória: “José Mario: o velho mineiro na fase das memórias deixa aqui um abraço para você, que ainda não está colecionando lembranças”; e As impurezas do branco, onde escreveu: “Para José Mario, com toda a simpatia do Carlos Drummond” (este exemplar, infelizmente, me foi roubado).

Ainda na editora José Olympio, presenciei uma conversa amistosa sua com Gilberto Mendonça Telles, autor de Drummond  ̶  A estilística da repetição; e, no começo dos anos 80, compareci à animada noite de autógrafos coletiva de que participou, ao lado da filha Maria Julieta.

José Mario Pereira – Editor da Topbooks

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