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Drummond poeta

Foi o próprio poeta quem atendeu ao telefone.

Identifiquei-me como o estudante recém-chegado ao Rio que o abordara dias antes na Barão de Jaguaribe, ele deu a entender que lembrava de mim, mas nada comentei sobre o ocorrido; limitei-me a consultá-lo se poderia deixar o exemplar de Reunião com seu porteiro para que o autografasse, adiantando que o apanharia de volta na data que melhor lhe conviesse.

Sua resposta me soou como uma reparação, e me encheu de alegria: “Não deixe na portaria não; venha aqui em casa, pois quero conversar com você”.

E marcou o dia 20 de abril, um domingo, para me receber em seu apartamento, no sétimo andar do número 60 da Rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana.

Nem acreditei! Na hora marcada, 10 da manhã, lá estava eu sendo recebido, de forma gentilíssima, pelo poeta cuja obra tanto admirava. Ele próprio abriu a porta, me estendeu a mão com a naturalidade de quem me conhecia há tempos, e me conduziu ao seu pequeno escritório, onde conversamos por quase três horas.

Durante minha permanência ali, pude notar que tudo era muito organizado e limpo, com os livros em sua maioria encadernados; Drummond só possuía no local o básico para o seu trabalho como cronista semanal no Jornal do Brasil  ̶  onde escrevia, há mais de uma década, às terças, quintas e sábados.

Também me chamaram atenção as fotos de família emolduradas em sua mesa de trabalho, junto com recortes de jornais com marcações a caneta, e a máquina de escrever, cujo aspecto deixou-me a impressão de ter sido adquirida há pouco, tal o seu estado de conservação.

Em todo o tempo em que permaneci na companhia de Drummond ele se mostrou atencioso e cordial. Perguntou onde eu tinha nascido, onde estudava, o que estava lendo no colégio; comentou que o trabalho de cronista exigia muito dele, embora só escrevesse sobre o que queria, e por fim autografou meu exemplar de Reunião.

De um jato, e quase sem tirar a caneta do papel, escreveu como dedicatória uma quadra – que penso ser inédita, pois não a encontrei em sua obra reunida:

“Os fazendeiros do ar… eles semeiam/roças de pura ausência, e o estranho gado/que pela noite adentro ainda campeia/é um lembrar do futuro, já passado”.

Ao longo de nossa conversa, eu passeava os olhos pelas estantes ao meu alcance, e lá vi obras de autores que então desconhecia, entre eles Apollinaire, Baudelaire, Léautaud (vários volumes do seu diário), Mauriac e Valéry.

Um tanto encabulado, comentei que não havia compreendido integralmente o ensaio de Antônio Houaiss que abria o Reunião. Drummond riu e falou: “Não se preocupe com isso. Eu também não entendi tudo o que está lá”.

Perguntei se nunca pensara em se candidatar à Academia Brasileira de Letras, e respondeu: “Não, nunca. Tenho amigos ali, e alguns já me sondaram, mas prefiro ficar no meu canto. Na última vez em que o Abgar Renault me falou nesse assunto, eu disse que da ABL quero mesmo é que voltem a publicar livros, como fez o Afrânio Peixoto quando esteve na presidência da instituição, e que editem um dicionário da língua portuguesa como o da Real Academia Española”.

Então se levantou, apanhou numa estante o Diccionario de la Lengua Española, encadernado em couro marrom, abriu numa página e, dando a impressão de examinar uma abonação qualquer, comentou que a obra lhe era muito útil, e que a consultava com frequência.

José Mário Pereira – editor – fundador da editora Topbooks

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