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Drummond poeta

No início de abril de 1975, depois de muito ler e reler Reunião  ̶ 10 livros de poesia, resolvi tentar um encontro pessoal com Carlos Drummond de Andrade.

Na Livraria São José, um sebo que ele frequentou até adotar a Leonardo da Vinci como ponto de referência no centro da cidade, ouvi que, desde 1964, Drummond comparecia todo sábado a uma reunião de literatos no apartamento do advogado e bibliófilo Plínio Doyle.

Depois de perguntar a uns e outros, acabei conseguindo o endereço do local onde, com sorte, poderia dialogar, por alguns minutos, com o autor de A rosa do povo: Rua Barão de Jaguaripe, 74, Ipanema.

Então, no dia 5, tratei de estar lá por volta das 15h30, horário em que, me disseram, Drummond costumava chegar.

Só depois viria a saber que, muitas vezes, ele passava por lá rapidamente e seguia para outro lugar: o apartamento de Lígia Fernandes, sua namorada por mais de 30 anos.

Localizado o prédio, fiquei de tocaia do outro lado da rua, e ali permaneci atento ao ir e vir das pessoas, na expectativa da chegada de Drummond, que eu só conhecia pela foto no livro que trazia comigo.

Depois de aguardar por cerca de meia hora, vislumbrei, na esquina da Joana Angélica, a magra figura do poeta em mangas de camisa, caminhando em passos rápidos na direção do prédio.

Apressei-me em atravessar a rua para abordá-lo antes que entrasse. Tendo comigo apenas o livro dele, e inseguro quanto à acolhida que receberia, só consegui dizer: “Dr. Drummond!”. Ele se virou de imediato, ágil, e respondeu: “Sim!?”.

Contei-lhe então, ali na calçada,  que era estudante e leitor de sua poesia, e indaguei se poderia autografar meu exemplar de Reunião.

Drummond esboçou um sorriso de assentimento, e eu já lhe passava o livro quando a porta da garagem se abriu de repente, quebrando o silêncio reinante, e de lá saiu um homem calvo, de expressão facial severa, que caminhou rápido em direção ao escritor consagrado, abraçou-o num gesto que sugeria também proteção, e solícito o conduziu para a porta, não sem antes olhar  para mim e, com voz áspera e tom azedo, dizer: “Vá embora, garoto! Não incomode o poeta!”.

Diante do inusitado da situação, fiquei mudo, tanto pelo susto provocado com o aparecimento repentino daquela figura que interrompera, de modo abrupto, o início de uma conversa que tinha tudo para ser simpática, como também pela grosseria com que me tratou.

Percebi no rosto de Drummond certo embaraço com a situação, mas, como o outro continuava com a mão em seu ombro, abraçando-o, ele se deixou conduzir.

Ainda fiquei uns segundos ali, naquela calçada, rememorando os fatos, tentando entender a razão que levara aquele senhor a me tratar daquele modo.

Sem decidir para onde ir, caminhei pelas redondezas até que deparei com um orelhão, e me ocorreu telefonar a um amigo que fizera há pouco: o jornalista Hildon Rocha, morador na Visconde de Pirajá, 452.

Ele me convidou a ir ao seu apartamento para conversar um pouco e fazer um lanche.

Lá chegando, contei o que acabara de vivenciar, descrevi o homem que me tratara mal, e Hildon o identificou de imediato: era Plínio Doyle, o anfitrião do chamado “Sabadoyle”.

Meu amigo me aconselhou a não dar importância ao que se passara, não sem antes comentar que muitos tinham por grosseira a figura em questão.

Em seguida, apanhou uma agenda sobre a mesa, examinou-a por alguns instantes e me ditou o telefone de Drummond, aconselhando-me que o contatasse.

Deixei passar uns dias, criei coragem e liguei para 227.5696.

José Mário Pereira

PS – Zé Mário é um sensível editor, inclusive o fundador da editora Topbooks, que ele até hoje comanda. Com profunda intimidade com os grandes escritores brasileiros, principalmente os “imortais” da ABL, nos conta, num texto delicioso, como conheceu o nosso poeta. Redes sociais não são espaços – pela compressão dos textos – para se mostrar relatos como esse. No entanto, vou tentar, por capítulos.

Ah, sim, Zé Mario, editou o meu último livro; “Bediai – O Selvagem e o voo das borboletas Negras”.

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