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Nós do Araguaia - Capa.jpg 1

Obrigado Raquel Dias, pelo resgate.

Capítulo do livro de Edilson Martins, “Nós, do Araguaia”, (3 edição, ano 1978). Mandei buscar o meu nos sebos da vida…rsrs. 
Diário de um Jagunço é forte, violento, até pela vivência dos que abraçavam essa profissão. Mas é de uma beleza de escrita, com detalhes de informações, quase Machadiano, que resolvi escrever e postar.
Hoje é domingo, mais tempo de lazer, vale a leitura….

“Jagunço, sim senhor.

Eu não sou filho de ninguém, sou filho do Diabo. Mas também sou filho de Deus. Passa fora capeta, vai atazanar o canhoto, que eu não sou canhoto não. Antes do ano 2.000 o Amazonas vai inundar tudo; o Araguaia, o Xingu, o das Mortes vão ser um rio só, um grande lago, e esse será o dia do Juízo Final. Quem tiver muito pecado o canhoto, com o dedinho indicador, vai chamando, cheio de riso cínico. Isso aqui vai virar um marzão, do tamanho do mundo.
Eu não mato ninguém, cumpro as ordens do senhor. Ajudo a descansar, alívio dos sofrimentos dessa vida, não sei, isso não é pergunta que se faça a um homem; respeito é bom e eu gosto, eu não mato ninguém, obedeço apenas às ordens do senhor. Que mata é o Diabo.
Sou jagunço, e dai? Nunca pedi favor a ninguém, não sou homem de pedir esmola, cada um vive como pode; ser jagunço é trabalho como qualquer outro, nunca roubei, nunca desonrei filha de ninguém, nunca persegui mulher casada, e se mato é porque o patife não prestava, não devo satisfação a ninguém tem cabra que tava mesmo precisando de uma lição pra não viver se fazendo de besta, e por mim não vivia nessa vida, não, porque não nasci assim, sou filho de família, meu pai foi um vaqueiro decente, nunca maltratou ninguém, e minha mãe, bom, nome de mãe não se mete assim em qualquer conversa, pois nome de mãe não é bibelô de menino.
Não é que um patife, que com jeito pedi pra ir embora, que tava ocupando terra do meu patrão, tocou no nome de minha mãe, sem mais, nem menos? A ordem era pra mandar embora, aconselhando, ensinando que não se deve invadir terra dos outros, e não é que o sem-vergonha foi logo xingando e não é que esquentei a cabeça e toquei fogo no patife, com espingarda calibre 16, atirando no peito, pondo outro cartucho e atirando na cara, pra garantir evitar surpresas, só pro bandido aprender que não se fala no nome da mãe dos outros assim, porque, nome de mãe não é crina de jumento onde qualquer um mete a mão…
Sou da Paraíba, com orgulho sim, senhor, terra de macho, de cabra valente, onde nem Lampião tirou leite com espuma, terra de homem que não mija fora do pinico, de mulher que não chora em enterro do amante, e onde a vingança e firme como mijo de rã.
A valentia é a soberba do pobre. Sou valente! Quando aqui cheguei tinha minha terra. E quem não tinha? Terra nessas bandas nunca teve dono, os donos chegaram depois, havia roça, criava umas cabeças de gado, e até bode! Carne de bode é carne boa, mas esse bicho acaba com tudo. Uma vez uns 3 ou 4 bodes quase arrebenta com o roçado de milho. Êta-praga desgraçada são esses bichos, mas gosto de bode, quando era menino sempre gostei de torcer pescoço de galinha, era um divertimento dos infernos ver a galinha, o capão, pescoço torcido, estrebuchando no meio no meio do terreiro, saltitando feito carrapeta maluca; também gostava de sangrar porco, mas só deixaram sangrar o primeiro quando já era taludo, já tinha pentelho nas pernas. Enfiei a peixeira no pescoço do danado, antes dei uma paulada na cabeça, e então taquei a peixeira no pescoço do porcão, e logo o sangue esguichando, sangue vermelho, bonito, e a Cleuza, mulata de coxas gostosos, vinha com a lata de banha apanhar aquela sangrenta toda, e não é que chouriço de sangue de porco é gostoso dos diabos? Gosto de matar, mas não gosto de comer.
Um dia apareceu os donos de minha terra, e não é que tentei resistir? Não é que me dei mal? Não é que tive que fugir, depois de estrepar um filho da puta, o primeiro em minha vida, na ponta de um punhal? Uma desgraça! 
Sou ignorante, mas escrevo meu nome, sim, senhor. Já vi cidade grande, Recife, Fortaleza, João Pessoa, Cuiabá já esteve nos meus pés, e não sou um bunda mole, sem mais valia, não.
Quantos matei, não sei, isso não é pergunta que se faça, o colega pode se dar mal com esses atrevimentos, respeito é bom e eu gosto. Fui peão, mas vida de peão é uma desgraça, e quem tinha mulher e filho como eu 
, não podia ser peão a vida inteira. Não sou capanga de ninguém, se algum patife falar isso, eu toco um punhal nas costelas pra deixar de ter língua grande.
Quando aqui cheguei tudo era mato. Então esse povão, de Machado e terçado na mão, amassou tudo.e nunca ninguém foi chamado de bandeirante.
Não sou filho de ninguém, sou filho do Diabo, mas também sou filhote Deus.
Um dia tudo isso vai mudar. E vai ser antes do ano 2.000. A bandeira verde tá aqui, Padre Ciço falou, e se ele falou é porque tá aqui. No dia que chegar a bandeira verde navais ser preciso matar mais ninguém, nem viver de tal função, que isso não deveria ser trabalho de homem nenhum. Na bandeira verde ninguém é patrão, ninguém é empregado, a terra é de todos, os rios não tem dono, os irmãos não vão precisar amarrar as camisas, e a glória de Deus não ficará nem a cima nem a baixo de ninguém. Nesse dia encontrarei meus filhos e minha mulher, e nem precisarei ser atazanado por sonhos malditos. 
Mas por enquanto tou como o Diabo gosta.”

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