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Grande e eterno Nelson Rodrigues.

Poucos, no século 20, conheceram tão profundamente as contradições dessa coisa dramática chamada paixão, dessa coisa impenetrável que se reconhece alheia à razão.

Curioso é que ele, Nelson, pessoalmente, foi o mais pudico e conservador dos homens.

E, no entanto, foi um guerrilheiro, melhor me explicando, um terrorista, a cada peça, a cada crônica, produzia derramamento de sangue, matava os sagrados conceitos da família, quebrando mitos, provocando, assustando os bons costumes.

Não à toa foi o mais censurado em todo o século 20, talvez até mesmo em toda a história de nossa literatura. 

Ele fez, com mais contundência, claro, no século 20, o que Eça de Queiros fizera no século anterior, assustando a família portuguesa, escandalizando, principalmente na segunda metade, que foi o tempo em que o português viveu.

Todas as espécies para se manterem no planeta têm dois desafios básicos, centrais; sobrevivência física e uma consistente estratégia de reprodução.

A humana conquistou a razão, a reflexão, a consciência da morte, entre outras complicações.

Então, necessariamente, essa estratégia de reprodução sofreu mudanças profundas, e no entanto, vamos supor, ficou a nostalgia do macho alfa, do mais forte, em outros quesitos, em outras dimensões. 

Nelson, sua obra, quem sabe, se debruça sobre essa memória, nesta curta e abusada crônica.

Tive o privilégio de com ele conviver, numa redação, sem, no entanto, nunca ter sido seu  amigo.

Um dia pediu, e eu neguei, ao fazer uma reportagem sobre a Feira de Livros, na Cinelândia, no final dos anos 60, que incluísse o “Vestido de Noiva” entre os mais vendidos.

Não era verdade, a peça não estava sequer entre os 10 mais vendidos.

Terminou conseguindo o 3o lugar, posto ter recorrido ao Carlos Tavares, meu chefe de Reportagem, na redação do Globo,.

Passei a odiá-lo, por absoluta falta de percepção pessoal, coisas de jovens. Ele precisava ser lido, mesmo ferindo a suposta ética dos homens.

O que não me  impediu de continuar conferindo suas histórias, seus textos, suas crônicas – deliciosos – mesmo tendo que engolir esse idiota “sapo” moralista na garganta de meus preceitos, de meus preconceitos, de minha “moral”.

Grande e inesquecível Nelson. 

 

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