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muralha

Segunda tentativa para vistoriar o carro. A primeira, perdida por esquecimento.

Agora, semana depois, novo agendamento, já que só as havia na Barra ou no Recreio.

Fila longa e demorada; Detran do Catete.

Já com a senha na mão, percebo que a lanterna traseira, a da esquerda, nem sempre obedecia ao comando.

Nenhuma desgraça, por pior que seja, pode deixar de se agravar.

O meu atendente, fila 4, certamente tivera a esposa dormindo de calça.

Duas motos e um Picasso estavam no limbo, e ele não cedera.

Pensei; perdi.

Vi ao longe, ao lado do computador, um bottom vermelho, escondido, protegido pelo mau humor do funcionário.

Ao ser chamado, saio do carro e o cumprimento. Ele retruca;
– Senhor, dentro do carro. Acionar os comandos, sem sequer me olhar.

Pensei, tou fodido. Antes de sentar no banco, lanço o anzol, ainda sem isca;
– Pelo menos o amigo é vascaíno, não teve que acordar como eu, que sou Flamengo.
– Vascaíno o quê? Que merda esse Diego. Agora ficam botando a culpa no Muralha.

Fico na minha. Acertei na estratégia de cumplicidade, pensei satisfeito. Quem é Muralha? O Diego já ouvira falar. Mexi a pedra, buscando o óbvio.

– Também com esse nome, Muralha.
Ele me olha assustado; – Que diabo, ele não tem culpa. Mandaram, ora porra? E o Diego? Um merda. Ele sim é culpado.

Quando anunciou culpado – palavra mágica – voltei a entrar no jogo.

– Sempre procuram culpado, prossegui. Coisa de religião. Parece coisa de evangélico.

Ficou calado. Me ferrei. Deve ser evangélico. Pisei na jaca.

Ele confere os pneus, e ataca, possuído de brutal mau humor;
– Que evangélico que nada. Esses babacas não torcem por time nenhum. O time deles é o pastor.

Voltei a ficar à vontade. Achei que poderia avançar. Uns dias antes, com o meu filho e seus amigos, falaram num tal de Diego, Diego Cavaliere.

Por ser negro o atendente, joguei a cartada final.
– Um time como o nosso não pode ter jogador com esse nome. Diego, sim, mas Cavaliere, Cavaliere é nome de Coxinha, de Mauricinho.

Ele pede que abra o bagageiro, me olha espantado, perplexo, à beira de uma apoplexia, confere que minha lanterna traseira falhava, e lasca;
– Que merda de flamenguista é o Senhor? Diego Cavaliere é do Fluminense, time de babaca.

Me olha pela primeira vez, e ordena.
– Pica a mula, sai de fininho, se não tenho que embarreirar.

Quase no meu ouvido, falando baixinho, olhando para os lados, indica;
– Pega os documentos lá em frente, faz que nunca me viu, e sai batido. Que porra de flamenguista!…

Já dentro do carro, retornando, depois de ultrapassado o Rebouças, em direção à Lagoa Rodrigo de Freitas, feliz, pensei, relaxado;
– O Rio está cada vez mais difícil. Mas dá pra ir tocando…

 

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