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No próximo dia 27 faz dois anos que Inês Etienne morreu, certamente um dos grandes símbolos da resistência da esquerda à ditadura militar que se implantou no país a partir de 64.

É possível que o inferno que ela viveu – é possível,  não, de verdade –  sua luta foi enxovalhada ao que hoje assistimos de podridão produzida pelas lideranças dos chamados movimentos populares, no primeiro governo de esquerda que o país conheceu.

No dia seguinte à sua morte, postei este texto:

O verme, que devolveu luz a um país, morreu ontem, serenamente, pela manhã, em Niterói. Não morreu como viveu, posto que sua vida, de luta e enfrentamentos, foi marcada por suplícios, espancamentos inimagináveis e estupros.

Estou falando de Inês Etienne, a ex-presa política que viveu para contar. Única sobrevivente da Casa da Morte, em Petrópolis, RJ, já que, os que passaram por esse aparelho de terror do Exército brasileiro, nenhum viveu para contar.

Inês militou em organizações armadas, que lutaram contra a Ditadura, e terminou presa no dia 5/05/71. Seu suplício e resistência pessoal talvez sejam o mais expressivo retrato do que foram os anos de terror que marcaram os governos militares durante 21 anos de poder.

Na Casa da Morte por quatro vezes tentou o suicídio até ter o seu rosto desfigurado.  Não prestando mais como informante, o que nunca aconteceu, e pelo longo tempo em que se encontrava encarcerada, firmou um acordo com os seus algozes; deixaria a prisão, se infiltraria entre seus companheiros da Var-Palmares, e voltaria para denunciá-los.

Blefou, mais uma vez, e o que é mais grave; memorizou os codinomes de seus torturadores, e dos presos políticos que por lá passaram, e por lá foram eliminados.  Era a política de estado.

Foi mais longe; gravou o telefone da Casa da Morte, que ela, um dia, sob pancadaria, ouvira por acaso.  Única sobrevivente, viveu para contar. Sem ela, certamente, até hoje não saberíamos da existência desse Inferno.

Num de seus depoimentos, solta, mas já sem poder falar, em cadeira de rodas, dobrada pelos anos de violência, sussurrou, que após sair da Casa da Morte, “estava arrasada, reduzida não mais que a um verme”.

O seu testemunho nenhum país civilizado gostaria de exibir.

Em verdade o que sobreviveu a esse inferno de dor e crueldade, o que ontem faleceu, neste 27/04, data para mim também especial, por razões parecidas, não foi mais ela, não foi Inês Etienne, foi um farrapo humano, uma pálida memória do que foi, e nunca mais seria.

Ines Etienne não foi apenas uma mulher que ajudou a revelar os subterrâneos dos suplícios e assassinatos de um regime que consagrou a tortura, o mais hediondo e covarde crime de nossa espécie; ela orgulha a memória da resistência humana.

Pessoas como ela justificam a sobrevivência do ser humano, que os gregos alertavam inconcluso.

E olha que ao tempo em que foi presa era apenas uma moça que lutava contra uma noite de trevas que duraria 21 anos, ela que tanto gostava de rock nroll, amava os Beatles e os Rolling Stone.

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