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A um tempo que nossos heróis têm os pés de barro, que o desencanto toma conta de muitos, uma simples mulher, humilde burocrata de uma instituição do estado, nos lega uma lição.

A um tempo que não poucos protestam, e quase ninguém consegue agir, dizer não, uma mulher decide  enfrentar o poder maior, e faz a opção pela ousadia.

Ela se chama Luciana Tamborini, agente do Detran do Rio, de olhar doce mas alma carregada de firmeza, a mulher do não. O país assiste à sua teimosia.

Há quatro anos ela e a irmã, Tatiana Tamborini, sua advogada, travam luta desigual contra um Juiz poderoso, João Correa, e têm perdido todas, nos labirintos da Justiça. 

E a cada derrota multiplicam suas forças no direito de dizer não.

Não, ao silêncio de uma população que reclama, mas na hora de agir, recua, fica temerosa, igualzinho à garçonete de “Narrativas Selvagens”, o inconveniente e assustador filme argentino.

Miss Tamborini nos faz recordar a determinação e a coragem de Antígona, personagem de Sófocles, dramaturgo da Grécia clássica. Outra mulher do não!.

Na tragédia grega, Antígona, em sua mais profunda solidão, desamparada, sem poderes que a sustentassem, decide se insurgir contra o poder arbitrário de Creonte, Rei tebano, que condenara seu irmão a não ser enterrado, e assim ficasse exposto à putrefação pública. 

A prisão de miss Tamborini, nos idos de 2011, por ter acreditado que a lei existe para ser cumprida, independente de cor ou classe social, a expôs à putrefação pública.

Creonte, Rei, era um Deus, certamente não tão poderoso quanto o nosso Juiz João Correa, mas mesmo assim Antígona peita o seu poder, e decide agir em conformidade com as leis de seus ancestrais.

Seu irmão tinha que ser enterrado, e o fez, e pagou com a própria vida.

Antígona mais que se insurgir contra um Poder arbitrário, que negava ao irmão o enterro, ela nos lega uma ação política, eterna; nenhum poder pode ferir as premissas da razão, do bom senso, nenhum poder pode estar acima das memórias sagradas de nossa civilização.

Antígona, lá atrás, nos legou o patrimônio do não, sem o qual nenhum país merece o nome de nação.

A mesma lição que nos parece estar legando miss Tamborini; lição política, lição de vida, que o país precisa, com urgência, resgatar.

Esta semana, miss Tamborini, ingressou, mais uma vez com um recurso no Tribunal do Justiça do Rio, acreditando que o exemplo de Antígona, embora derrotado, vale a pena prosseguir.

As pessoas de bem começam a torcer por esta mulher. A primeira perdeu, mas deixou o testemunho. Nenhum poder pode atropelar as premissas da razão.

Tamborini, tudo indica, mais de dois mil anos depois, acredita na verdade de Antígona.

 LEI SECA/VAQUINHA

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