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Chegada do último exilado brasileiro, Antonio Duarte dos Santos, de 75 anos

A leitura do sujeito que na esquina comprou o jornal,  leu a notícia, ou do outro surpreendido pelo telejornal, não pode ser diferente; esse cara virou maluco de carteirinha.

O que eles não sabem é que Antônio, como tantos outros seus companheiros, e tempos passados, apostaram tudo, num país intimidado pelas baionetas, que um governo assim podia cair; alguns morreram, outros como ele ficaram eternamente marcados.

Apostaram no bilhete da liberdade, essa coisa quase melíflua, quase uma platitude, nos dias que correm; apostaram no fim do terror. Apostaram no direito dessa coisa simples de ir e vir, de emitir juízos, de não se curvar diante do coturno.

Perderam? Talvez sim, talvez não. Se formos contabilizar as vitórias pessoais perderam tudo, ou quase tudo; família, amigos, país, memórias, e quem sabe uma juventude, senão uma vida inteira. Catalogar as perdas é tarefa dolorosa, e nem vale a pena tentar fazê-lo.

E onde entra este blog nessa história?  É que vendo as fotos de Antônio, as impressas e as dos telejornais, fui picado pelo diabo da memória, memória cruel, tantas vezes.

Só que o diabo das fotos e imagens voltam a infernizar os meus olhos, e já agora minha memória.

Matei a charada. Antônio Geraldo da Costa era o Tigre, codinome de guerra, negro moleque, ruidoso, que hospedei, melhor dizendo homiziei, ele e todo o seu grupo, em dois apartamentos, melhor dizendo, em dois conjugados; um na rua Sousa Lima, e o outro,  na Paula Freitas, ambos em Copacabana, nos idos de 68 e 69.

Eu era um abestado estudante da atual UFRJ, com os olhos abertos,  perplexo diante do mundo, recém-chegado dos confins da Amazônia,  onde o vento fazia a curva e as borboletas coloridas  dominavam as praias nos meses de verão.

Tigre e seu grupo passavam as semanas realizando assaltos, os primeiros que a Ditadura conhecia, invadindo penitenciárias e soltando guerrilheiros presos, elaborando mapas, estudando rotas de fuga, enfim, infernizando a vida homens que faziam a ditadura se manter.

À noite, dormia com eles todos, não enxergando, nem entendendo direito em que tudo aquilo iria dar. Ninguém deixava os grotões do país nos anos 50, e se deparava com as garras do terror, impunemente. Meu apartamento era o apoio logístico das ações.

Ligava o rádio, sim, aquela era a época do rádio, e lá ouvia os âncoras das emissoras falando da crueldade, da barbaridade, de Tigre e seus parceiros. Tudo exagero, tudo mentira.

Ria sozinho, no caminho de ida ou volta à faculdade, até porque esse era um riso que não se podia compartilhar com ninguém.

Enfim, só pra terminar. Ninguém tem o direito de rir da loucura de Tigre. Sua loucura é a loucura de Dom Quixote, do Rei Lear, a loucura dos visionários, a loucura que torna o homem possível, enfim. A loucura que sem ela, certamente, a vida não teria sentido.

Sem ela talvez tivéssemos, quem sabe, até hoje, uma ditadurazinha amena, com alguns direitos, que o mundo já tanto nos mostrou, mas sem nunca deixar de ser Ditadura.

Só pra terminar, novamente; não vale a pena, não é honesto, rir da loucura do Tigre.

Ps – este texto foi escrito em julho de 2009 e um amigo, que dividia o apartamento comigo, o geólogo Ivo Medina, que o conheceu, o sugeriu este resgate. Cito o seu nome sem consultá-lo. Espero não perder o amigo.

 

 

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