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chica 001

Sentei no quiosque que divide a Praia de Copacabana da do Leme enquanto esperava a equipe chegar do deslocamento. O dia parecia morno e ameno, mas isso durou pouco.

Já no segundo gole do coco, sentou um casal mineiro na mesa à minha frente. Ele, pangaré com marra de garanhão, chegou botando banca, “desce dois cocos e se não tiver bem gelado eu devolvo,” ela gata sensual no limiar do boazuda para roliça, shortinho atochado e viseira da hora, tentou amenizar em um meio sorriso constrangido, “nuuu, Antônio Augusto, como cê é bruto!” “Eu sou é macho e tô pagando,” relinchou mostrando os dentes.

A atendente que havia me parecido à primeira vista emburrada, trouxe os cocos com um sorriso doce e ainda deu dica sobre o moço do chapéu que já devia estar para passar. A namorada levantou toda catita da cadeira e ameaçou tirar a blusa para botar um vestido de crochê daqueles que as turistas compram na areia e desfilam todas iguais no calçadão, “ê, ê, ê, pó parando, nem pensá!”

“Que isso, môzão, mas por quê?

“Porque eu tô dizendo, uai. Tá toda se achando aí. Tá é abusada só porque tá no Rio.”

Ela voltou para cadeira sem embate, vestindo a cara da decepção.

“Ô, fia…” ele deu duas batidinhas na mão dela que se estendia sobre a mesa, “…seu mozão é muito bom para você, né não? Só te leva pras boa. Quer tomar aquele picolé que cê gosta?”

Ela esboçou um sorriso triste.

Nisso fomos interrompidos por um cracudo descamisado vindo do acampamento improvisado na sombra dos coqueiros, ele pede um isqueiro e depois um cigarro – a cada pessoa que parava no quiosque o ritual repetia.

Um segundo cracudin veio sorrateiro por trás e tentou puxar um barbante com uma chave que ele tinha na mão, aí sabe como é, começou uma briga lenta de dois homens inebriados que não tinham controle o bastante do corpo nem rapidez de movimento para engajar de fato com violência ou ao menos chegar a uma solução, os dois emaranhados cambaleando em pé na areia se balançavam para lá e para cá em solavancos preguiçosos enquanto seis polícias conversavam em um círculo displicente do outro lado do calçadão.

Durou uns quatro minutos nessa câmera lenta, até que uma pretona gorda com cabelo desgrenhado e um bebê choroso em punho, interveio aos berros e foi quando o mais novo conseguiu pegar a chave.

Éramos uns seis clientes no quiosque hipnotizados pelo impasse. Ainda gritaram poucas e boas um para o outro até que o mais velho atravessa o quiosque gritando, “filho da puta! Não tem essa de ser filho, não, seu merda. Quero mais é que se foda! Vai lá agora no depósito buscá pó, vai! Volta esse rabo para Bangu mermó e fica lá pedindo dinheiro para comprá cigarro! Fica aí vendendo cocaína e maconha, tem mais é que sê preso mermo,” ele gritava o mais alto possível enquanto um dos policiais mostrava algo demasiado engraçado no telefone que demandava toda a atenção dos outros.

Volta e meia uma brisa quente com cheiro de merda se soltava dos coqueiros e invadia o nariz sem aviso prévio.

Um casal mais velho de alemãs desavisados suava profusamente o Pantone de pele rosa e cabelo platinado colado à testa enquanto disponibilizava para os malandros interessados as câmeras reluzentes e supersônicas presas aos pescoços.

Eu, na dúvida se falava algo ou ficava na minha, tive meu olhar roubado por uma mendiga magrela e bem disposta que atravessou o quadro aproveitando a distração da atendente e pegou um coco do cacho preso ao quiosque, “adoro coco, tenho paixão,” ela gargalhou.

Ela se afastou um metro da gente e num gesto selvagem jogou o coco com toda força contra o calçadão. Deu mais uma olhada para a gente checando o público numa risada rasgada em que a cabeça chegou a ir para trás, e repetiu o ato mais três vezes.

O coco mostrou uma fissura, ela descascou com o dente a casca grossa e jogou do alto a água em cascata até a boca, deixando derramar pela bochecha e pescoço a la Tieta.

Avistei um pivete chapado, disfarçado atrás do poste me assistindo escrever esse texto, olhinhos fixados no meu telefone, olhei para baixo e senti um calafrio espremer meu ar para fora do peito.

Sem pensar voltei o olhar para dentro do olho dele e dei sem querer um sorriso lento e largo, ele me olhou meio confuso e sorriu sem jeito, virou o olhar, me olhou mais duas vezes e saiu por aí pelo calçadão.

No meu último gole quando esqueci de tudo e avistei o mar, a equipe chegou. Mais uma tarde quente de fim de verão no calçadão.

Texto – Francisca Libertad –

 

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