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Corriam os primeiros anos da década de 70, quando conheci José do Carmo Santana. Com esse nome ninguém saberia dizer quem é, tão pouco, quem foi.

E, no entanto,  foi um grande homem. Zé Bel, esse o nome verdadeiro.

No começo foi o escudeiro de Apoena Meireles. Era como se fossem irmãos. Era valente, corajoso, e os inimigos do sertanista sabiam com quem lidavam.

Nesse pacote entravam  garimpeiros, fazendeiros, empreiteiros, caucheiros, latifundiários, todos querendo a eliminação dos índios, já que ocupavam terras valiosas, as mais férteis da Amazônia, afora a  cassiterita, ouro, e não menos diamantes.

E os dois estavam atrapalhando e moviam uma resistência feroz. Certa feita, num boteco vagabundo de beira de estrada – BR-364- , em Rondônia, um segurança cismou com a minha cara, viu que eu era um merda naquele mundo – repórter –, e em outros, partiu pra cima.

Zé Bel pulou feito um gato, o imprensou  na parede, e falou algo, que nunca me revelou,  no ouvido do segurança. Nunca esqueci esse gesto.

Logo Zé Bel se torna um sertanista experimentado, participando de frentes de atração para contatar Suruí, Zoró, Cinta-Largas, Gaviões, Uru-eu-au-au, Arara, enfim, a grande nação Nhambiquara, e sempre, ou quase sempre,  ao lado do amigo Apoena Meireles.

Naqueles anos 70 dirige  o Parque Nacional do Aripuanã, onde viviam e vivem  essas nações, do que sobrou. Vale registro que habitam as bacias do Aripuanã, Roosevelt, antigo rio da Dúvida, e Ji-Paraná, todas tributários do rio maior, o Madeira.

Região intocada, indevassada, senão pelos índios, belíssima, o Eden onde tudo começou com Adão e Eva.  Se não é o que diz a Bíblia, é pelo menos o que se supõe. Falo dos anos 60, 70. 

Já no final daqueles anos, a invasão e a eliminação física dessas nações viraram prioridade. Houve então objetivos conjugados; a parceria entre o estado brasileiro e os grupos privados;  fazendeiros, migrantes procedentes do Sul,  grandes empresários.

Era o tempo ufanista, nacionalista, autoritário, da “terra sem homens, para os homens sem terra”  dos Governos militares, principalmente Médici.

Apoena foi fuzilado em 2004, à porta de um banco em Porto Velho, quando para  ali se deslocara tentando impedir a invasão do território Cinta-Larga, onde existe a maldição dos diamantes. Uma miséria.

Já Zé Bel, mais rude, que no início acreditou na utopia do respeito às populações indígenas, começou a perceber, de forma aguda e dolorosa, o naufrágio de todos os seus sonhos.

Nunca vou esquecer o dia em que visitamos um Supermercado, em Cacoal, nas margens da BR-364, Rondônia, e vimos índias assediadas como prostitutas.

Era muito forte à sua compreensão. Voltando à nossa base ele me repetiu, duas vezes; “mano velho, é pra isso que estamos trazendo esses povos da selva para a cidade? Me responda, você que é mais instruído do que eu?”.

Não respondi porra nenhuma.  Responder o quê?

Em 1984 ele dispara um tiro no peito, de madrugada, hora da loba, de arma 22, e sua agonia durou muitas horas, muitas dolorosas horas. E lá se foram 33 anos!…

 

Um pensamento em “Índios e o naufrágio das ilusões (27/11/2014)

  1. Terrivel, meu caro.

    E o que assistimos agora?
    Uma latrina chamada Congresso está prestes a ser responsavel pelas demarcaçoes das terras indigenas.
    Essa latrina tem 40% de composição ruralista. Gente boa. Moradores da Pauliceia e donos de grandes nacos Brasil adentro.

    Terrivel, meu caro.

    Curtir

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