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Conflito no rio Traíra

O ataque das farcs (forças armadas revolucionárias da Colômbia) a uma base militar brasileira, na divisa do Brasil com esse país, nos idos de 26/02/1991, bem que merece ainda jogar, quem sabe, alguns dedos de conversa fora.

Inclusive pela gravidade, já que o Brasil não chega a ser uma republiqueta, embora não poucos torçam por isso.

Três militares brasileiros foram mortos, e mais 9 ficaram feridos. As farcs capturaram estações de rádio, numerosa munição, uniformes, e todo o armamento do posto. Na ação contaram com os HK 5.56 e as espingardas de caça calibre 12, de potencial arrasador.

Pelo que consta, não tiveram baixa. Foi uma afronta às forças armadas brasileiras, de bom tamanho. Em todo o século 20 isso nunca acontecera. A tropa estava enlouquecida, principalmente os comandantes.

Duas guerrilheiras participaram da ação, e a serra do Traíra virou um Vietnam, já que a semelhança de selva e rios – os mesmos trópicos – é muito grande. Havia um clima de imensa tensão, e o desejo de troco era imenso. O que terminou acontecendo.

O rio Traíra, majestoso, lindo, separa os dois países, numa selva intocada, na região onde se encontram os municípios de Tabatinga e Letícia, este já território colombiano. É um fim de mundo aonde a civilização ainda não chegou, graças a deus.

Naquela época, tanto quanto hoje, era passagem do tráfico de cocaína, buscando o Solimões, uma vez que a Colômbia ainda vivia o desafio das farcs e não menos de Escobar, que levavam pânico permanente, principalmente às autoridades e forças legais.

A nossa relação, – Beliel, o fotógrafo, e eu – com os militares brasileiros não fora fácil; a recepção inicial e continuada foi de extrema hostilidade, inclusive porque a área onde ocorrera o ataque estava conflagrada.

Fomos ameaçados, os dois comandantes repetiam que na área quem mandava eram eles, e disso não tínhamos dúvidas, ora, ora, e mesmo assim conseguimos ser os primeiros a chegar ao local onde houve o ataque, no meio da selva, pegando carona num helicóptero militar.

Dias depois seguíamos para Bogotá, num avião civil, saindo de Letícia, numa aeronave carregada de galinhas, e sacos de cocaína.

O interior do avião era um mercado persa. Conseguimos esse voo num bar fuleiro da boca do lixo de Letícia, onde conhecemos os pilotos que cobraram 25 dólares por cada passagem.

E lá fomos nós, em busca de novas matérias, numa Colômbia em guerra-civil, onde quase todos os dias explodiam bombas nas cidades, principalmente Bogotá, matando, ferindo, e deixando a população em estado de choque.

E a União Soviética, o grande Império do século XX, onde já em 1989 o Muro de Berlim fora derrubado a marretas, começava a ruir, naufragando os sonhos dos que acreditaram num mundo sem classe, sem a perversa competição capitalista, sem a exploração do homem pelo homem, com todos vivendo num mundo fraterno.

Bom, esse teria sido o sonho, posto que os 70 anos da experiência socialista foram marcados por campos de concentração, Sibéria, dissidências, perseguições políticas, assassinatos, invasão de nações irmãs em cima de tanques, e não menos a herança stalinista.

Essa, de arrepiar os cabelos.

Foto de Ricardo Beliel

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