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A passagem do Ano aconteceu aqui na Serra, num restaurante 4 estrelas, Michelin, com a presença de alguns nomeados pela lista do Janot.

Nele tudo é sofisticado.

Por sozinho, fui lá jantar, encontrar amigos que venceram na vida, o que não é o meu caso, fugir de minhas rabugices, de meu olhar cinzento perante o mundo, não menos perante os homens.

Lá encontrei Helena, claro, seu nome não é este.

Foi uma das mais belas de seu tempo, disputada, pela beleza, por emissoras de TV, partidos poderosos, e dela se dizia não entrar em sala, adentrava em cena.

A universidade toda a desejava. Sem distinção de gênero.

Quando circulava parecia caminhar descalça sobre as estrelas. Quando se retirava, deixava um rastro invisível de luz, luz tênue, mas estonteante. Quando emitia um até logo legava um abismo de desencanto.

Como, tantos outros, não lhe neguei a corte, versos no auditório, versos em particular, juras de paixão, e despesas muito além de minha  restrita mesada.

Sorria, sorria sempre, e a ninguém, pelo que se soube, a ninguém correspondeu.

Terminou casando com um jovem, filho de banqueiro, e na Europa foram morar.

Encontro-a cercada de pessoas, adulada como sempre, muito altiva, filhos, netos, e, no entanto, lá se passaram 3,4 décadas.

Recebeu-me festivamente, falou do casamento que deu certo, sempre sorrindo muito, muito ruidosa, carregada de sotaque inglês, e aproveitando a saída do marido, já um pouco obeso, para fumar seu cachimbo no jardim paradisíaco do restaurante, convidou-me a nos ver, fora dali.

– Quem sabe jantarmos, apenas nós dois, quem sabe realizando o seu perseguido desejo dos tempos de faculdade, concluiu sorrindo com delicadeza, femininamente.

Olhei em seus olhos, e disse, constrangido, constrangidíssimo, estar muito ocupado, fechando mais um livro, cuidando de um roteiro, e com compromissos no Rio.

Às 2hs da madrugada, chamei meu motorista, e já dentro do carro, cabisbaixo, amuado, embriagado por nacos de amargura, ele me pergunta se eu estava bem, ou apenas enfadado.

Respondi que estava triste.

E, silenciosamente, resgatei Voltaire, a melhor cabeça do século das luzes, a mais instigante de todo o século 18.

Ele dizia, e agora digo eu:

– O consolo das belas mulheres a que fiz a corte, em tempos idos e vividos, e não corresponderam, é que se não morrerem, vão envelhecer.

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