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ditadura-22

O diabo é que tenho esquecido, embora nos primeiros 12,15 anos tudo tenha feito para apagá-la.

E, no entanto, é preciso lembrá-la, para não esquecê-la. 

Ano pesado aquele 1969. E lá se vão 47 anos.

O AI-5 se implantara, liberdades sepultadas, as mais simples, a tortura comendo solta nos quarteis, nos aparelhos das forças policiais, e naturalmente as mortes covardes, negadas, camufladas.

A imprensa perseguida, informando, quando possível, por metáforas, versos célebres, ou buscando no tempo, na meteorologia, a tempestade reinante.

Habeas corpus, esquece; Congresso subjugado, prisões sucessivas na calada noite, terror implantado, pelo menos para os que não dobraram a espinha.

No bairro Peixoto,  Praça Edmundo Bittencourt, em Copacabana, Rio, acolhia dois guerrilheiros, já fazia quase uma semana, e busco o contato,  um amigo de faculdade, militante da organização, nas proximidades de meu apartamento.

O apartamento do Álvaro já havia caído, e de lá, já preso e espancado, fui para a Rua Barão de Mesquita, um dos quartéis do Exército onde mais se torturava, e naturalmente matava.

Um oficial me advertiu; “estás indo para o Inferno.”

Aos que hoje falam em “golpe”, mídia entreguista, imperialismo americano, direita fascista – inclusive velhos que viveram àqueles anos – não há clareza para entendê-los.

Podem ser desinformados, e a desinformação é a mãe de todos os pecados, no caso dos jovens.

No caso dos outonais, talvez ainda impregnados pela certeza de suas crenças infalíveis, foram se tornando míopes – a idade às vezes é perversa – não puderam mais enxergar.

Continuam vendo a vida passar pelo retrovisor de suas convicções ideológicas.

Reproduzindo um clichê; a democracia é o pior regime do mundo, exceto os outros.  

Sócrates inclusive tomou cicuta para nela não viver, e, no entanto, até hoje, não se criou nada melhor.

Nenhum Governo autoritário, de esquerda, de direita, mesmo apregoando feitos em saúde, educação, conquistas tecnológicas, olímpicas, avanços espaciais, seja o que for, vale a prerrogativa de dizer não, de ir e vir livremente, de recusar o pensamento único, de escolher nossas opções existenciais, nossos livros, teatros, eleições amorosas.

Enfim, de ser diferente. Liberdade é um bem supremo, uma cláusula pétrea, inegociável, na vida de todos os seres.  

Nesses regimes, essa opção, está interditada.

Dezoito de dezembro, um dia para nunca mais esquecer.

 

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