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Quando naquele inimaginável dia – 19/06/2015 – Marcelo Odebrecht recebeu em sua mansão, no Morumbi, em SP, os agentes da PF convidando-o a visitar uma prisão em Curitiba,  havia sido dito antes que a República poderia cair se tal fatalidade acontecesse.

O patriarca Emílio, mercurial, raivoso, poderoso, também alertara sobre a necessidade de construção de mais duas celas, onde implícito ficou que seriam para Lula e Dilma, caso seu filho Marcelo preso fosse.

O príncipe dos empreiteiros adentrou a cela da pensão de Moro, arrogante, soltando faísca pelas narinas, com a faca amolada, peixeira,  entre os dentes, legítima onça pintada, onde apenas o ronco já faz fugir todos os outros bichos da selva.

O país ficou assustado.  O “juizeco” de Curitiba estava indo longe demais.

Plena onça pintada, assustadora, depondo numa CPI do Congresso, já em setembro de 2015, disse à nação que delatar não era verbo conjugado em sua empresa, muito menos no DNA de sua família.

– Quando uma de minhas meninas entrega a irmã, quem sai censurada é a delatora.

Era um recado à 13ª Vara Federal, aos políticos, executivos, magistrados,  que ele corrompera, para o país saber com quem estavam falando.

Continuava, mais do que nunca, uma temida onça pintada.

Naquele ano – 2015 – sua empresa faturara R$132 bilhões; poucos países produzem este PIB em suas economias.

Obstinado, disciplinado, irascível, poderoso, mergulhou no escapismo dos exercícios físicos, numa cela de 16 m2, tendo que diariamente fazer uso do “boi”, do humilhante “boi”, e metodicamente limpar as latrinas de outros presos.

Mesmo assim continuava onça pintada, felino para ninguém com juízo subestimar.

Tempo houve que dividiu a cela com um traficante de drogas. Inacreditável,  mas continuava onça pintada.

Não queria, mas se viu obrigado a sair da presidência de todo o Grupo.

O velho mercurial Emilio, alertou: “ou fazemos isso, ou a Odebrecht quebra”.

Bancos não podem negociar com empresas cujo presidente vê o Sol quadrado.

Aos poucos Marcelo foi diminuindo, reduzindo o tamanho, o teor do ronco, virando boa praça, segundo seus carcereiros, ficando até menos assustador, quase dócil,  perdendo o estrondoso terror das onças pintadas.

Se o presidente Mao o tivesse conhecido, diria, quem sabe, que aos poucos o tigre perdia os dentes.

Agora, finalmente, ao assinar a delação premiada, a delação do fim do mundo, o apocalipse anunciado, que ameaça fazer tremer as pilastras da República, Marcelo Odebrecht onça pintada já não o é mais.

Virou jaguatirica, não que não possa desfechar golpes, atacar, ferir, ameaçar, pôr pra correrem outros bichos graúdos, mas onça já não o é mais.

Ao fim e ao cabo:

A lenta e dolorosa metamorfose de uma onça pintada, uma máquina de medo causar, reduzida a uma curiosa jaguatirica, quase um gato doméstico, num país em brutal transformação, que não poucos incréus ainda duvidam continuar.

A narrativa dessa curiosa e surpreendente metamorfose Kafka nos ficou devendo.

 

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