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Camus - 1957 - dançando

Para não dizer que não falei de flores.

Logo mais teremos um novo Ano. Mais um, ou menos um?

Desafios: deletar o cigarro, perder peso, beber menos, mudar de emprego, largar o casamento que depreciou, repensar a vida, o Ano Novo é pleno de esperanças.

Todos sabem; a esperança é a vitamina dos que perderam, dos que acreditam em milagre, em reza forte, dos que ainda esperam acontecer.

Nenhum apostador de Loteria esportiva tem déficit de esperança, por óbvio.

O mito de Sísifo, que Camus se apropria para realizar uma obra magistral, é uma construção que nos ajuda, talvez, a compreender melhor a existência humana.

Condenado a repetir, sempre, a tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, quando o consegue ela despenca e retorna novamente ladeira abaixo.

Uma força irresistível invalida completamente o duro esforço empreendido.

Mais uma metáfora da vida humana?

E, no entanto, o Novo Ano é a busca de mudanças, da renovação dos sonhos.

Ou estamos todos condenados a reproduzir o esforço insano, sem sucesso, de Sísifo, onde os sonhos, os desejos, os desafios perseguidos terminam descendo ladeira abaixo?

Camus, que sobreviveu, literariamente, o que parece não ter acontecido a Sartre, registra que parcela maior da existência é construída a partir da esperança, esperança de um amanhã sempre melhor.

E, no entanto, essa esperança do amanhã, é justamente ela que nos aproxima da morte.

Mas registremos que, antes disso, não raro, acontece o doloroso naufrágio das quimeras, dos projetos, dos mais cultivados de nossos sonhos.

Nem Camus, nem Sartre, assim falaram. Machado certamente. 

Se a vida é um grande palco, onde há os que se apresentam como bons atores, e não poucos serão sempre canastrões, convenhamos que raramente somos o que parecemos, tão pouco parecemos o que de fato somos.

Tudo isso para resgatar a tragédia de mestre Romão, personagem eterno de Machado.

Sempre sonhou um dia criar uma grande missa, com a estatura de um Mozart, de um Bach. Não teve êxito.

Morreu cantado e celebrado pelas modinhas carnavalescas ou peças de campanhas políticas que ele criava. Era um engajado. O povão adorava.

Ele, internamente, se odiava.

Em sua lápide constou: “morreu em paz com os homens, e de mal consigo mesmo”.

Há uma personagem em “A Viagem de Bediai – O Selvagem” que, ao final da vida, descobre ser “insaciável o desejo e inevitável a derrota”.

Lembra alguém? Lembra todos nós!

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